terça-feira, 28 de outubro de 2008

Qualquer preço será sempre alto demais.

Eloá: vida e morte “a qualquer preço”
Ruth de Aquino
diretora da sucursal de ÉPOCA no Rio de Janeiro

Eloá tinha a idade das debutantes quando foi morta pelo primeiro namorado com um tiro na cabeça. Pode parecer careta, mas as festas de 15 anos não saíram de moda. A doce e bonita Eloá foi seqüestrada e executada por Lindemberg, um discípulo de 22 anos do assassino septuagenário e impune Pimenta Neves. Uma estirpe de machos que não aceitam a rejeição. Foram cem horas de crueldade e covardia de Lindemberg. Para completar, a polícia errou e parte da mídia exagerou.

A tragédia começou quando Lindemberg, sete anos mais velho que Eloá, decidiu que ela não seria de mais ninguém. Os crimes passionais são quase um privilégio masculino. Se, como diz a lenda, mulheres são mais ciumentas, por que raramente matam ao ser abandonadas? “Homens são por natureza mais violentos, predadores. É o instinto homicida dos machos, o mesmo dos lobos, dos animais”, diz o psiquiatra Luiz Alberto Py. Ao decidir terminar um caso de amor, a mulher está mais vulnerável a ser assassinada.

Dias depois do crime de Santo André, outro jovem de 22 anos, Daniel Pereira, invadiu a casa da ex-namorada, Camila Araújo, de 16 anos, e a matou com um tiro na cabeça. Na frente do filho dos dois, bebê de 1 ano e meio. Daniel queria passear e reatar com Camila. Mas ela não queria. Ele voltou meia hora depois com um revólver 38 e a matou. Dormiu na casa de um amigo. No dia seguinte, foi preso.

Ninguém deu muita bola para esse crime, sem contornos de espetáculo. Não havia seqüestro. Nem mártires. Nem policiais cercando um prédio. É provável que Daniel tenha se inspirado em Lindemberg. Mas ele não virou o “príncipe do gueto”. Camila, mãe precoce, foi enterrada pela família. Não houve cortejo de 12 mil pessoas, tampouco aplausos como no enterro apoteótico de Eloá. Um crime foi abrupto e particular, como tantos. O outro se estendeu por dias, escancarou o despreparo policial e aumentou absurdamente a audiência da televisão. Especialmente de programas especializados não em jornalismo, mas em manter a massa ligada a qualquer preço.

Não há estatísticas de crimes passionais no Brasil. Dos 45 mil homicídios por ano, os cálculos sobre mulheres mortas assim variam de 2.500 a 10 mil. Os assassinos são maridos, namorados, amantes, conhecidos e ex-tudo. A Justiça contribui ao não punir criminosos como o jornalista Pimenta Neves, que matou há oito anos a colega Sandra Gomide porque ela não queria mais namorá-lo. Saiu de casa armado, matou-a com um tiro pelas costas e outro no ouvido, confessou, foi condenado e livrou-se da cadeia. Há duas semanas, Pimenta Neves pediu à OAB um registro de advogado, 35 anos depois de ter recebido o diploma da faculdade de Direito. Por que tanto desplante?

O culpado é, claro, o assassino. Mas, no caso Eloá, a polícia abusou do direito de errar. E a mídia ultrapassou fronteiras éticas. Não consigo aceitar que se entrevistem ao vivo seqüestradores armados sem ao menos consultar quem negocia o resgate. A polícia não pode reclamar da mídia. Juntos, criaram o seu Big Brother e transformaram Lindemberg “no cara”. Policiais adoram aparecer como Rambos, abrem suas conversas com o bandido para microfones sedentos. Permite-se que sinais de televisão e celular cheguem ao cativeiro e perde-se o controle. Lindemberg escuta os ecos de sua voz, sente o gosto da fama. Eloá vai para a janela, Nayara volta, e alguém ainda vai faturar com esse roteiro no cinema. Dois clássicos são O Quarto Poder, de Costa-Gavras, e A Montanha dos Sete Abutres, de Billy Wilder.

Há nos seres humanos a tentação de agir “a qualquer preço”. Um candidato à Prefeitura do Rio afirmou em toda a campanha que não queria vencer “a qualquer preço”. É uma reflexão importante. Muitos de nós tentamos, “a qualquer preço”, preservar o casamento, manter o emprego, ser promovido, ganhar o jogo de futebol, bater os índices de audiência, vender mais revistas, passar numa prova, sair vitorioso numa eleição, lucrar mais, enriquecer. Não vamos nos iludir: “a qualquer preço” é um preço alto demais.

Por isso que eu gosto da Ruth de Aquino. ;)

2 comentários:

Claudia disse...

Estava pensando nisso hoje enquanto estava vindo trabahar com meu marido, sobre como criamos meios pra punir os preguiçosos e em contrapartida, incentivamos os impulsivos descontrolados(no meu caso era um motorista de ônibus que achou que estava numa pista de corrida). Mas a verdade é que infelizmente estou tendo a oportunidade de ver vários jovens que valorizam tudo de pior no ser humano e que se acham donos de tudo. Talvez precisemos de uma grande guerra para encontramos a paz e a humanidade novamente.

japa. disse...

Oi "professora/amiga"! :D
É, seria triste.
Mas lembra que estávamos falando disso na sala? As coisas só funcionam sobre pressão, em meio a crises, e até mesmo pela guerra.
E olha só, fiquei pensando muito naquele seu comentário sobre os EUA. É como colocar uma roupa nova e se sentir melhor,nea?

Gente...

"No pessimismo da razão e no otimismo da vontade"